O futuro do cinema chegou!

Cena de "Os mosconautas no mundo da lua"

 

Ontem o Box cinemas, que fica no Shopping Guararapes, inaugurou a sua primeira sala no complexo multiplex que vai exibir filmes exclusivamente em 3D. É a nova - e talvez única - maneira de não continuar perdendo cinéfilos para a pirataria. É bom lembrar que não foi pequeno o número de pessoas que evitou as bilheterias na hora de assistir o badalado "Tropa de Elite" por já ter assistido a versão em cópia pirata. Apesar de bater todos os recordes de público, calcula-se que poderia ter arrecadado pelo menos um terço a mais, não fosse as cópias que espalharam-se pelo país feito pipoca em sessão de quarta-feira. A indústria do cinema mundial acredita que investir em filmes com a tecnologia 3D é uma maneira de oferecer um produto exclusivo, diferenciado e à prova de falsificações. As exibições já começaram no sul do país e, ontem, foi a vez de pernambuco.

A rede Box diz que foi preciso investir quase 500 mil reais para dispor a sala 5 da tecnologia necessária para receber os novos filmes. Hoje, aproveitando o fim de uma semana de provas na faculdade, precisando relaxar, uni a curiosidade à necessidade de presentear minha filha (amanhã é dia das crianças) e fui conferir a novidade. Lá fomos nós assistir o filme belga "Os mosconautas no mundo da lua". Como a sala exclusiva é pequena, os ingressos tem que ser comprados com antecedência e as cadeiras são numeradas. O público ainda não está acostumada com organização e o filme começa com um pouco de atraso. Na entrada da sala, são oferecidos os óculos especiais que são o passaporte para uma experiência sensorial, no mínimo, impactante. Se você já foi assistir um filme 3D de antigamente lembra daqueles óculos de papelão com lente azul e rosa que prometia muito e entregava pouco. Enxergava-se uma imagem diferente mais muito longe de uma sensação de realidade. Agora não. Esses óculos são mais verdadeiros, não-descartáveis e, confesso, um pouco pesadinhos também. Mas a diferença no resultado final não tem comparação.

O filme conta a aventura de três moscas adolescentes que resolvem pegar uma carona na nave Apolo 11 e ir parar na lua. Pronto, você não precisa saber mais nada além disso. O que acontece a partir daí é de deixar o queixo do mais cético cinéfilo no carpete do cinema. O que acontece a seguir é de um deslumbramento tão intenso que você não sabe se presta atenção à história ou se delicia com a enormidade de detalhes que só uma experiência em 3D é capaz de dar. A novidade de curtir um filme onde tudo o que é visto soa absurdamente real faz repensar toda a idéia do que seja ir a um cinema. A animação prima pelos detalhes, desde a concepção dos figurinos, interiores, roupinhas das moscas, o local onde elas moram até a iluminação que dá à pelicula uma textura tão veraz que a vontade é de pagar o mico de esticar a mão e tentar pegar nos objetos. E acredite, todo mundo paga esse mico com prazer. É infantil mas é inevitável. E você também vai tentar pegar na mosquinha fofa, mesmo que escondido do colega de poltrona.

As primeiras cenas, que apresentam o habitat das moscas, já dão a idéia do show de imagens que virá a seguir. Os pneus velhos do quintal abandonado, o capim alto que falta entrar olho adentro, o cotidiano classe média dos bichinhos, é tudo feito pra você se apaixonar pelos personagens de cara. E é o que ocorre. A trama também é instrutiva ao contar o que foi a aventura dos primeiros homens que pisaram na lua. Os mais novos aprendem e os mais velhos recordam uma época que dá saudade até pra quem não a vivenciou. Até a guerra fria entre americanos e soviéticos está lá. Parece que foi ontem.

A película presta também uma homenagem filme "2001 - Uma odisséia no espaço", na cena em que as três mosquinhas flutuam ao sabor da gravidade, num balé pontilhado pela trilha da valsa "Danúbio Azul". O mesmo filme estreou também em versão normal mas é difícil imaginar o mesmo impacto da versão 3D. A perfeição com que a fita entrega profundidade, perspectiva, luz e textura faz da experiência uma sensação até complicada de definir. Mágica, talvez seja a palavra. Não, mágica não, aquilo lá é mesmo uma overdose de realidade virtual. Observe na cena em que o tubo de ensaio que prende nossos heróis se quebra e veja se quase não dar pra sentir os estilhaços, de tão reais. Lembra imagens daquela câmera especial que o "Fantástico" apresentou alguns domingos, só que potencializado pela tridimensionalidade. Um guri que estava sentado ao meu lado não se conteve: levantou-se da poltrona e saiu caminhando pelo cinema, gritando "Peguei, mainha, peguei uma!, espremendo na mão  uma mosquinha inexistente.

A novidade tem um preço: o ingresso pra sala 5 custa 14 reais - a inteira - mais 3 reais do aluguel dos óculos, que é devolvido no final. E devolva mesmo: a multa pela perda ou quebra do brinquedinho é de cem reais! Todo mundo sai extasiado, meio que sem acreditar no que viu. E olhando pras demais salas com um olhar de desdém. Vai ser duro mesmo assistir um filme comum depois disso. A invasão pirata pode estar trazendo de volta a magia da sala escura. A redenção do cinema pode estar chegando por essa estrada. E a viagem por ela é inesquecível. Quem ainda não a fez, embarque logo porque vale cada centavo.  

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